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Polêmicas do AO

Não são só as raquetes que andam afiadas em Melbourne. Os tenistas também andam fazendo a festa de fãs e jornalistas dando declarações contundentes, provocando frenesi midiático e atiçando a paranoia coletiva. Uma verdadeira festa do tênis! Ou será que não?

Polêmica n.º 1: Após a derrota para Roger Federer nas quartas, Jo-Wilfried Tsonga foi perguntado na entrevista coletiva sobre por que no tênis feminino não se viam as quatro primeiras do ranking fazendo sempre as semifinais de Grand Slam, como ocorre no masculino. Jo deu uma resposta direta e digna como um de seus forehands: segundo ele, é impossível mentir no tênis. Os jogadores que estão nos números 1, 2, 3 e 4 do ranking merecem estar lá, e são os melhores jogadores. É isso. A resposta lógica e razoável pareceu não ter sido suficiente e a pergunta seguinte voltou à carga: “Você tem alguma ideia de por que isso não acontece tanto no lado feminino?” E foi aí que Tsonga perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. A resposta, carregada de um certo machismo, foi mais ou menos assim: “Você sabe, as mulheres são mais instáveis emocionalmente do que nós. Tenho certeza que todo mundo vai concordar. Não? Vocês não acham? Eu quero dizer, é uma questão de hormônios e tudo o mais. Nós homens não temos todas essas desvantagens, portanto estamos bem fisicamente o tempo inteiro, e as mulheres não. É isso.”

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Madeirada verbal

É isso mesmo, Jo? Será que mulheres são mais emocionalmente instáveis? Será que sofrem com a influência dos hormônios (tipo TPM e essas coisas)? Será que isso afeta a qualidade do tênis jogado? Bom, vou deixar que cada um pondere suas próprias respostas a essas perguntas. O certo é que a declaração de Tsonga — mais especificamente o uso da palavra “hormônios” — deixou um rastro de mulheres indignadas mundo afora. Era pra tudo isso mesmo? Meu veredicto: não. Minha opinião feminina é de que Tsonga teve um momento infeliz, respondendo a uma pergunta nada-a-ver feita num momento em que ele mesmo admitiu não estar no melhor dos humores após perder a vaga na semifinal do AO por um nariz. Pra começar a conversa: por que diabos perguntaram isso pra ele? Desde quando Jo-Wilfried Tsonga deixou de ser um jogador de tênis pra virar phD em Estatísticas de Semifinais de Grand Slam e Suas Correlações com os Quatro Primeiros Postos do Ranking Mundial? Além do mais, podem me chamar de naive, mas eu acho até que ele teve boas intenções em encontrar uma explicação para o fato, diante da insinuação subliminar contida na pergunta, essa sim em puro detrimento do tênis feminino. Ele foi infeliz, sim. Deu mancada, sim. Falou bobagem, sim. Mas por favor, nada digno de apedrejamento em praça pública. Por que não invocamos a saudosa hashtag #quemnunca?, praticamos o nobre gesto do perdão e vamos ser felizes em vez de ficar arrumando confusão?

Aliás, queridas colegas mulheres: se eu fosse advogada (oh wait!) e as mulheres do mundo fossem minhas clientes neste caso, eu diria que esse tipo de reação não depõe muito a favor da nossa alegação de estabilidade emocional…

Polêmica n.º 2: O oba-oba em cima da adolescente Sloane Stephens, após uma vitória inesperada sobre a favoritíssima Serena Williams. Em um curto espaço de tempo de poucas horas, o mundo inteiro descobriu várias informações relevantes sobre a moça, como o seu número de seguidores no Twitter, a quantidade de mensagens que ela recebeu no celular após o jogo e o amor que ela sente pela Victoria Azarenka. Ficamos sabendo também que a moça é meio pão-dura, está preocupadíssima com a conta do telefone e talvez compre um sapato de presente pra si mesma em retribuição à excelente campanha no AO. Too much information? Hell yeah!

sloane

Devagar com os aplausos

Mas antes que a menina seja execrada e tachada de deslumbrada, como li muito no Twitter, é bom lembrar que a Sloane propriamente dita tem pouca ou nenhuma participação nesse frenesi midiático que se criou ao seu redor. Não é de hoje que a imprensa americana anseia pelo surgimento de uma nova promessa estadunidense no tênis. O afã é tamanho que muitos jornalistas andam persistindo nessas escorregadas. Tudo bem que pra quem já teve Sampras e Agassi deve ser difícil montar palcos tão espetaculares como o US Open, Indian Wells e Miami para ficar assistindo à festa alheia. Mas, definitivamente, não é tentando endeusar uma jogadora que ainda tem muito chão pela frente (nem tentando naturalizar a Maria Sharapova, nem acusando a número 1 do mundo de trapaceira…), que o tênis americano vai voltar a ser o maior do mundo. A imprensa dos EUA pisou na bola feio nesse Australian Open. E não para por aí.

Polêmica n.º 3: E polêmica das polêmicas: o atendimento médico de Victoria Azarenka. Basicamente, Vika estava com a vitória bem encaminhada, liderando por 4/5 no segundo set, quando solicitou atendimento médico, antes do game de saque da adversária Sloane Stephens. O trainer solicitou que o atendimento fosse realizado em reservado, uma vez que a tenista teria que se despir. Azarenka e o staff médico rumaram em direção aos vestiários, e voltaram alguns minutos depois. Jogo reiniciado, Vika quebrou o saque de Stephens e fechou o jogo.

Após o fim da partida, ainda em quadra, Azarenka deu essa entrevista aí embaixo:

Confuso, eu sei. Mas minha nítida impressão, quando vi o vídeo (já que na transmissão ao vivo com aquela tradução tosca nunca dá pra entender nada mesmo), foi de que a primeira fala da bielorrussa é totalmente dissociada da pergunta feita pela entrevistadora. Com um grande esforço de paranoia e má vontade, é possível supor que ela estava atribuindo sua solicitação de atendimento a uma crise de nervos. Porém mais tarde, na coletiva de imprensa, Azarenka disse que não tinha entendido a pergunta, o que é compatível com a resposta dada, um panorama geral de como ela se sentiu na partida. Vika esclareceu que estava tendo dificuldades para respirar, e que o médico destravou uma de suas costelas para que ela melhorasse.

Pedidos de atendimento médico são uma questão controversa no tênis. Não é raro que se levantem suspeitas sobre os jogadores que dão uma paradinha no andamento do jogo em momentos de efervescência. Mas o fuzuê que se criou ontem por conta disso ultrapassou todos os limites. A imprensa americana comprou uma briga inexistente — já que a própria Stephens disse que se Azarenka pediu atendimento médico é porque deveria ter seus motivos. Jornalistas procederam a um verdadeiro interrogatório na coletiva (o blog Tennis Alternative fez um comparativo interessantíssimo entre as perguntas feitas a Vika e as feitas a outros tenistas que também pediram atendimento médico em partidas tensas de Grand Slam), encostando a tenista número 1 do mundo contra a parede e fazendo insinuações de trapaça. Acusações sem provas. Um absurdo que na minha modesta opinião configura — isso sim — um franco desrespeito contra o tênis feminino. Que tipo de desmoralização o esporte enfrenta quando parte da imprensa tenta, com base em especulações, rotular a tenista número 1 do mundo como trapaceira?

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No banco dos réus

*Comentário de pé de ouvido* Não que os americanos possam falar muito sobre trapaça no esporte, certo? (Oi, Lance Armstrong!) *Comentário de pé de ouvido*

A verdade é que Azarenka é uma jogadora muito superior a Sloane Stephens, demonstrou isso em quadra e tinha a partida sob controle quando pediu atendimento médico. Stephens não vinha jogando bem, e não há motivos para se acreditar que seu jogo iria melhorar milagrosamente, ou que havia alguma espécie de momentum a seu favor àquela altura do jogo. Chega a ser ridículo supor que a paralisação de alguns minutos impediu uma virada histórica de Stephens, como a imprensa americana parece acreditar.

Se houve algum evento digno de reprovação em toda essa situação, foi a postura adotada na coletiva de imprensa, de acuar uma atleta e soterrá-la com insinuações acusatórias. A transcrição original pode ser encontrada no site do Australian Open. Simplesmente 21 das 27 perguntas feitas solicitavam esclarecimentos sobre o pedido de atendimento médico. Muitas delas elaboradas de forma absurda, como “Você acha que deve desculpas a Sloane pelo timing do seu pedido de atendimento médico?” ou “Foi um tempo muito longo, em um momento muito importante do jogo, não?”. Um pedido de atendimento médico, totalmente normal em jogos de tênis e dentro das regras, não tem por que causar qualquer mácula ao esporte. Já da histeria coletiva da imprensa de um país que não sabe perder, não se pode dizer o mesmo. 

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