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Stanislas Wawrinka, um delírio

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Stanislas Wawrinka fez história hoje em Melbourne. Não aquela História com “H” maiúsculo, a dos números e recordes. Mas a sua história. De um jogador que já havia batido duas vezes nessa mesma porta. A quem se apresentava insistentemente o mesmo desafio: enfrentar um dos maiores tenistas da atualidade no majestoso palco de um torneio de Grand Slam. Depois de derrotas em 5 sets nessa mesma Austrália e no US Open ano passado, ele conseguiu levar o jogo mais uma vez para a parcial final. Mas dessa vez, depois de 14 derrotas consecutivas para Djokovic, Stan escreveu um final diferente para a história — a sua história. Ele conseguiu.

Curiosamente, o homem que espantou seu próprio nêmesis para bem longe foi o mesmo que declarou categoricamente: “Eu não vou vencer o torneio”. Seria falta de autoestima? A suposta descrença em si mesmo já teria condenado Wawrinka ao fracasso na Austrália? Como num jogo de 5 sets, as coisas não são tão simples assim. Stan surgiu como tenista à sombra daquele que é considerado por muitos como o maior da História (essa sim, aquela com “H” maiúsculo). Durante muito tempo, foi considerado o “outro suíço”. E nunca pareceu muito desconfortável com isso. Wawrinka me parece ter a sabedoria de dispensar polêmicas inúteis ou qualquer tipo de oba-oba improdutivo. Ele não precisa reafirmar sua autoconfiança para ninguém além dele mesmo. Wawrinka parece ter uma humildade genuína e desprovida de esforço. É irreverente e descontraído no Twitter. Não por acaso, foi eleito a Personalidade do Ano de 2013 na Suíça. Merecido.

Nesta que se tornou a temporada dos supertécnicos, é tentador creditar boa parte do sucesso de Stan no Australian Open à sua parceria com Magnus Norman. Mas eu prefiro acreditar que Norman foi uma peça dentro de todo um processo de amadurecimento. Wawrinka teve em 2013 um ano de grande aprimoramento físico, técnico e mental. O suíço conseguiu se colocar em posição de igual pra igual frente aos grandes desafios que enfrentou. E agora finalmente parece estar criando as condições ideais para que seu inquestionável talento floresça, e seu belo tênis o leve às primeiras posições do ranking mundial.

A vitória de Wawrinka sobre Djokovic hoje na Austrália é tocante e emblemática porque materializa vários daqueles conceitos batidos que nos acostumamos a ver como balela: a vitória do azarão, a recompensa pela persistência, o patinho feio que passou de coadjuvante a protagonista. O homem que triunfou hoje é o mesmo que tem tatuada no braço a frase de Samuel Beckett: “Alguma vez tentou. Alguma vez fracassou. Não importa. Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.” E esse espírito de superação e perseverança, de quem tem que se virar com as dificuldades impostas pela vida, de quem não encara seus reveses como um fantasma, mas como um mestre, faz com que seja muito fácil para qualquer ser humano neste planeta sentir empatia por Wawrinka hoje. Embora aquele poema de Kipling tenha sido eternizado pelo outro suíço, é Stan quem parece entender melhor o que significa “encontrar-se com o Triunfo e com o Desastre, e tratar esses dois impostores da mesma maneira“.

O triunfo de Stan hoje na Austrália não entra para a História, aquela dos números e recordes. É apenas uma história de uma pessoa, como qualquer um de nós. E, por isso mesmo, muito mais grandiosa. Pois para este ano meu comentário sobre a final masculina do Australian Open do ano passado continua valendo: meu delírio inconfessável é que Stan seja campeão. Evidentemente, já não mais inconfessável. E, certamente, já não mais tão delírio.

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Ainda absoluto

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O campeão

Se a final feminina foi tão lacrimogênea quanto um livro do Nicholas Sparks, a final masculina foi só sorrisos. Bom, talvez não para Andy Murray. Mas ele está sempre fazendo careta mesmo.

Novak Djokovic se consagrou tetracampeão do Australian Open, com 3 títulos em sequência. Seria um clichê dizer que o sérvio mostrou por que é o número 1 do mundo na final contra Murray, mas foi exatamente isso que aconteceu. O britânico se manteve consistente no saque nos dois primeiros sets, com um aproveitamento absurdo de primeiro serviço. A partida parecia fadada a seguir no ritmo de longas trocas de bola do fundo da quadra até o quinto set. Mas foi aí que Djokovic ousou dar o passo à frente que caracteriza os grandes campeões. Após dois tiebreaks, um pra cada lado, Murray sacava em 3-4 para igualar o 3.º set. Djokovic se defendeu brilhantemente no saque do britânico e contra-atacou. Com uma bola na rede de Murray, o sérvio conseguiu o primeiro break da partida. Esse foi, pra mim, o turning point de Djokovic. Era o momento, a hora certa de quebrar. A partir desse game, o sérvio mostrou que estava ali para ir pra cima, para ganhar. E foi o que aconteceu. Nole não vacilou em seu game de saque e fechou o terceiro set em 6/3. No quarto set, o domínio do número 1 já era absoluto e a frágil fortaleza mental de Andy Murray já estava completamente desmoronada. O jogo se encerrava em 3 sets a 1 para confirmar o 6.º título de Grand Slam da carreira de Novak Djokovic.

No final das contas, venceu quem mostrou o melhor tênis, especialmente nos momentos decisivos. Djokovic já havia provado por que era o número 1 do mundo quando ganhou a batalha épica de 5 horas contra Stanislas Wawrinka, um jogo que certamente estará entre os mais acessados do AO Vault daqui a pouco. Já Andy Murray, que não perdeu um set sequer até a semifinal, teve uma campanha parecida com a de Maria Sharapova na chave feminina: resultados arrasadores, mas contra adversários em sua maioria inexpressivos. Seu primeiro desafio de verdade, o belo jogo contra Roger Federer na semifinal — onde, aliás, Murray jogou muito mais do que na final — contribuiu para uma percepção enganosa de favoritismo. Na hora H, o britânico não trouxe seu melhor para a Rod Laver Arena.

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O comunicativo

Há que se dizer que Murray foi um gentleman no discurso de vice-campeão. Eu adoraria — mesmo — que ele tivesse um comportamento assim também dentro de quadra. Suas caretas, xingamentos e arroubos de irritação chegaram a ser hilários. Talvez pra ele seja uma forma eficiente de extravasar a tensão durante o jogo, mas eu ainda não consigo entender como aquilo pode beneficiar alguém. Em mim, que estou vendo de fora, o comportamento em quadra do britânico provoca um misto de incômodo, irritação e acessos de riso. Eu simplesmente não consigo torcer por alguém que está o tempo inteiro brigando com o jogo porque eu amo aquele jogo. Mas acima de tudo me dá a nítida impressão de que ele consegue apenas criar uma atmosfera de negativismo ao seu redor. E impedir que seu belo tênis domine a cena.

Bem, duas semanas se passaram e é hora de dizer um “até breve” para o Australian Open. Fazendo jus a um de seus apelidos, foi um Grand Slam feliz. Que premiou a competência — os títulos de simples e duplas masculinos e femininos foram para os cabeças-de-chave número 1. Mas que mostrou também que o tênis transcende a frieza dos números e resultados. Não demore a voltar, Australian Open! Já estamos com saudades.

Victoria

O que eu tenho de importante pra dizer sobre o desfecho da final feminina do Australian Open é uma coisa só: foi de cortar o coração.

Assim foi porque uma jogadora que conquista seu segundo título de Grand Slam deveria derramar lágrimas de felicidade, e não de desabafo. Deveria chorar de alegria, e não por sentir-se redimida. Mas Victoria Azarenka chorou não porque teve que lutar 7 batalhas dentro de quadra, e sim porque sobreviveu a um massacre ao qual nenhum atleta deveria ser sujeitado. Vika chorou copiosamente como alguém que acorda de um pesadelo são e salvo.

As lágrimas da campeã

Como se não bastassem as emoções advindas do lado da campeã, Na Li também nos deixou com um aperto no peito. Agressiva, aguerrida e dando constantes demonstrações do seu imenso talento, a chinesa não merecia sair perdedora. Confesso que, em diversos momentos da partida, me peguei torcendo pra ela. Mas no momento em que Li parecia caminhar a passos largos em direção ao título, tendo vencido o primeiro set e equilibrando o segundo, veio a torção no pé. Longos minutos de atendimento médico depois, a chinesa voltou com o tornozelo enfaixado, e Azarenka levou o segundo set. No terceiro set, logo após 10 minutos de paralisação em razão da queima de fogos do Australian Day, e provavelmente graças à perda do aquecimento na noite fria de Melbourne, Na Li voltou a deslocar o tornozelo, dessa vez caindo e batendo com a cabeça no chão. Seguiram-se mais alguns minutos de atendimento médico, e Li voltou pro jogo mais uma vez. Ao final, tendo deixado escapar a chance de conquistar seu segundo título de Grand Slam, a chinesa apenas tinha os olhos mareados perdidos no horizonte.

Primeira lesão de Na Li

Segunda lesão de Na Li

Levando em conta todo o drama vivido por Azarenka na última semana do torneio, a gente pode dizer que até mesmo as contusões de Na Li na partida final serviram para dissipar quaisquer dúvidas sobre o merecimento de Vika. A bielorrussa, que também tinha pedido atendimento médico na partida anterior (oh, aquele atendimento médico…), foi brindada com uma amostra perfeita de karma imediato. Ou, como dito pelos comentaristas brasileiros, “provou do seu próprio veneno”. Só que, mesmo com dois longos pedidos de atendimento da adversária, Azarenka conseguiu se manter focada, aquecida, dentro do jogo. Postura de campeã de Grand Slam. E de número 1 do mundo.

Nessa final que não deveria ter perdedores, Azarenka foi a merecida campeã. Foi quem se manteve de pé até o fim, sobrevivendo a todas as adversidades — dentro e fora da quadra. Vika foi julgada e condenada injustamente por uma parte da imprensa que carece de fair play e sobretudo de caráter. Mas o momento de sua redenção chegou. E o que vai ficar para a história é simplesmente isso: Victoria Azarenka, bicampeã do Australian Open.

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“You have to go through rough patches to achieve great things” – Victoria Azarenka

Pitacos nas finais do AO

Victoria Azarenka vs. Na Li

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A final feminina do Australian Open vai ser protagonizada por dois grandes nomes. De um lado, a tenista número 1 do mundo e defending champion. Do outro, uma chinesa com chances de faturar o “Grand Slam of Asia/Pacific”.

A atual campeã pavimentou seu caminho até a final com uma campanha sólida, onde cedeu apenas um set na longínqua terceira fase. Infelizmente, a participação de Azarenka no AO tem sido mais comentada em razão de um pedido de atendimento médico na partida semifinal contra Sloane Stephens do que por causa de seu tênis. Mas o fato é que Vika vem justificando sua posição no ranking, jogando um tênis consistente e sem dar chances reais às adversárias. Poderia o imbróglio do MTO interferir no jogo de Azarenka na final? Acho pouco provável.

Na Li, por sua vez, superou expectativas. O tênis da chinesa veio evoluindo ao longo do torneio, e justamente quando todo mundo achava que ela ia dar aquela amarelada contra Maria Sharapova, a moça mostrou um jogo agressivo e com poucos erros. Li vem embalada por vitórias contra as tenistas número 2 e 4 do mundo. Se bater também a número 1 na final, será uma campanha memorável.

Expectativa, realidade e mundos alternativos:

Eu desejo e espero sinceramente uma vitória da Victoria (heh). Como disse o Mario Sergio no Twitter, uma das duas vai deixar de ser uma One Slam Wonder. Nesse momento, acho que Azarenka poderia capitalizar muito mais em cima desse título, consolidando sua posição como número 1 do mundo e dissipando dúvidas. Na realidade, porém, acho que o jogo não vai ser nada fácil pra bielorrussa. Na Li pode complicar, e acabar concretizando a bizarra profecia que eu vaticinei no Twitter alguns dias atrás. Cala-te, boca!

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Novak Djokovic vs. Andy Murray

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Fazendo repeteco da última final de um Grand Slam (US Open 2012) e despontando como o que alguns estão chamando de “nova rivalidade do tênis masculino”, Djokovic e Murray apresentaram diferenças e semelhanças no caminho para a final. Cada um enfrentou um 5-setter de respeito, embora o de Nole contra Wawrinka tenha sido muito mais dramático e desgastante. No geral, Murray teve vitórias mais tranquilas. O britânico ganhou todos os sets que jogou até a semifinal, e sua pequena escorregada foi diante do gênio Roger Federer. Perfeitamente compreensível. Já Djoko teve que encarar um jogo de 5 horas nas oitavas, com direito a desfecho dramático por 12 a 10 no quinto set.

Tudo isso significa que o fator físico pode ser determinante? Bem, Djokovic pareceu se recuperar bem de sua maratona, e despachou Tomas Berdych por 3 a 1 na rodada seguinte. Murray demonstrou uma superioridade física gritante com relação a Federer, especialmente no quinto set. Mas nada que supreenda, em razão da diferença de idade entre os dois. A vantagem do número 1 é poder contar com um dia a mais de descanso. Também colaborou uma semifinal nada dramática resolvida em 3 sets contra David Ferrer. Ainda assim, minha sensação é de que o tênis de Murray anda sobrando no torneio. Seguro, consistente e aprovado com louvor na verdadeira prova de fogo que teve contra Federer.

Expectativa, realidade e mundos alternativos:

Não me perguntem o que ainda falta acontecer para que eu aceite puxar o carneirinho escocês pra dentro do meu rebanho, e torcer por ele como eu torço pelos outros três grandes. A atitude mental de Murray, constantemente — ainda — brigando consigo mesmo, simplesmente me dá nos nervos. Obviamente na cabeça dele essas questões já estão muito bem resolvidas, vide os resultados do ano passado, mas na minha, não. Sendo assim, vou ser repetitiva e destinar minha torcida de novo a esse sérvio que ninguém consegue não amar. E eu adoraria uma vitória rápida em 3 sets, mas duvido que vá acontecer. A realidade nua e crua promete trocas de bola intermináveis e um jogo bem longo. Se Murray vencer, também não será nenhuma surpresa. O cara vem jogando muito, e todos vão continuar com um pé atrás mesmo até que ele vença Wimbledon. Se vocês querem saber meu delírio inconfessável sobre a final masculina do AO, aí vai: eu queria mesmo era que o Wawrinka fosse campeão. 

Polêmicas do AO

Não são só as raquetes que andam afiadas em Melbourne. Os tenistas também andam fazendo a festa de fãs e jornalistas dando declarações contundentes, provocando frenesi midiático e atiçando a paranoia coletiva. Uma verdadeira festa do tênis! Ou será que não?

Polêmica n.º 1: Após a derrota para Roger Federer nas quartas, Jo-Wilfried Tsonga foi perguntado na entrevista coletiva sobre por que no tênis feminino não se viam as quatro primeiras do ranking fazendo sempre as semifinais de Grand Slam, como ocorre no masculino. Jo deu uma resposta direta e digna como um de seus forehands: segundo ele, é impossível mentir no tênis. Os jogadores que estão nos números 1, 2, 3 e 4 do ranking merecem estar lá, e são os melhores jogadores. É isso. A resposta lógica e razoável pareceu não ter sido suficiente e a pergunta seguinte voltou à carga: “Você tem alguma ideia de por que isso não acontece tanto no lado feminino?” E foi aí que Tsonga perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. A resposta, carregada de um certo machismo, foi mais ou menos assim: “Você sabe, as mulheres são mais instáveis emocionalmente do que nós. Tenho certeza que todo mundo vai concordar. Não? Vocês não acham? Eu quero dizer, é uma questão de hormônios e tudo o mais. Nós homens não temos todas essas desvantagens, portanto estamos bem fisicamente o tempo inteiro, e as mulheres não. É isso.”

tsongue

Madeirada verbal

É isso mesmo, Jo? Será que mulheres são mais emocionalmente instáveis? Será que sofrem com a influência dos hormônios (tipo TPM e essas coisas)? Será que isso afeta a qualidade do tênis jogado? Bom, vou deixar que cada um pondere suas próprias respostas a essas perguntas. O certo é que a declaração de Tsonga — mais especificamente o uso da palavra “hormônios” — deixou um rastro de mulheres indignadas mundo afora. Era pra tudo isso mesmo? Meu veredicto: não. Minha opinião feminina é de que Tsonga teve um momento infeliz, respondendo a uma pergunta nada-a-ver feita num momento em que ele mesmo admitiu não estar no melhor dos humores após perder a vaga na semifinal do AO por um nariz. Pra começar a conversa: por que diabos perguntaram isso pra ele? Desde quando Jo-Wilfried Tsonga deixou de ser um jogador de tênis pra virar phD em Estatísticas de Semifinais de Grand Slam e Suas Correlações com os Quatro Primeiros Postos do Ranking Mundial? Além do mais, podem me chamar de naive, mas eu acho até que ele teve boas intenções em encontrar uma explicação para o fato, diante da insinuação subliminar contida na pergunta, essa sim em puro detrimento do tênis feminino. Ele foi infeliz, sim. Deu mancada, sim. Falou bobagem, sim. Mas por favor, nada digno de apedrejamento em praça pública. Por que não invocamos a saudosa hashtag #quemnunca?, praticamos o nobre gesto do perdão e vamos ser felizes em vez de ficar arrumando confusão?

Aliás, queridas colegas mulheres: se eu fosse advogada (oh wait!) e as mulheres do mundo fossem minhas clientes neste caso, eu diria que esse tipo de reação não depõe muito a favor da nossa alegação de estabilidade emocional…

Polêmica n.º 2: O oba-oba em cima da adolescente Sloane Stephens, após uma vitória inesperada sobre a favoritíssima Serena Williams. Em um curto espaço de tempo de poucas horas, o mundo inteiro descobriu várias informações relevantes sobre a moça, como o seu número de seguidores no Twitter, a quantidade de mensagens que ela recebeu no celular após o jogo e o amor que ela sente pela Victoria Azarenka. Ficamos sabendo também que a moça é meio pão-dura, está preocupadíssima com a conta do telefone e talvez compre um sapato de presente pra si mesma em retribuição à excelente campanha no AO. Too much information? Hell yeah!

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Devagar com os aplausos

Mas antes que a menina seja execrada e tachada de deslumbrada, como li muito no Twitter, é bom lembrar que a Sloane propriamente dita tem pouca ou nenhuma participação nesse frenesi midiático que se criou ao seu redor. Não é de hoje que a imprensa americana anseia pelo surgimento de uma nova promessa estadunidense no tênis. O afã é tamanho que muitos jornalistas andam persistindo nessas escorregadas. Tudo bem que pra quem já teve Sampras e Agassi deve ser difícil montar palcos tão espetaculares como o US Open, Indian Wells e Miami para ficar assistindo à festa alheia. Mas, definitivamente, não é tentando endeusar uma jogadora que ainda tem muito chão pela frente (nem tentando naturalizar a Maria Sharapova, nem acusando a número 1 do mundo de trapaceira…), que o tênis americano vai voltar a ser o maior do mundo. A imprensa dos EUA pisou na bola feio nesse Australian Open. E não para por aí.

Polêmica n.º 3: E polêmica das polêmicas: o atendimento médico de Victoria Azarenka. Basicamente, Vika estava com a vitória bem encaminhada, liderando por 4/5 no segundo set, quando solicitou atendimento médico, antes do game de saque da adversária Sloane Stephens. O trainer solicitou que o atendimento fosse realizado em reservado, uma vez que a tenista teria que se despir. Azarenka e o staff médico rumaram em direção aos vestiários, e voltaram alguns minutos depois. Jogo reiniciado, Vika quebrou o saque de Stephens e fechou o jogo.

Após o fim da partida, ainda em quadra, Azarenka deu essa entrevista aí embaixo:

Confuso, eu sei. Mas minha nítida impressão, quando vi o vídeo (já que na transmissão ao vivo com aquela tradução tosca nunca dá pra entender nada mesmo), foi de que a primeira fala da bielorrussa é totalmente dissociada da pergunta feita pela entrevistadora. Com um grande esforço de paranoia e má vontade, é possível supor que ela estava atribuindo sua solicitação de atendimento a uma crise de nervos. Porém mais tarde, na coletiva de imprensa, Azarenka disse que não tinha entendido a pergunta, o que é compatível com a resposta dada, um panorama geral de como ela se sentiu na partida. Vika esclareceu que estava tendo dificuldades para respirar, e que o médico destravou uma de suas costelas para que ela melhorasse.

Pedidos de atendimento médico são uma questão controversa no tênis. Não é raro que se levantem suspeitas sobre os jogadores que dão uma paradinha no andamento do jogo em momentos de efervescência. Mas o fuzuê que se criou ontem por conta disso ultrapassou todos os limites. A imprensa americana comprou uma briga inexistente — já que a própria Stephens disse que se Azarenka pediu atendimento médico é porque deveria ter seus motivos. Jornalistas procederam a um verdadeiro interrogatório na coletiva (o blog Tennis Alternative fez um comparativo interessantíssimo entre as perguntas feitas a Vika e as feitas a outros tenistas que também pediram atendimento médico em partidas tensas de Grand Slam), encostando a tenista número 1 do mundo contra a parede e fazendo insinuações de trapaça. Acusações sem provas. Um absurdo que na minha modesta opinião configura — isso sim — um franco desrespeito contra o tênis feminino. Que tipo de desmoralização o esporte enfrenta quando parte da imprensa tenta, com base em especulações, rotular a tenista número 1 do mundo como trapaceira?

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No banco dos réus

*Comentário de pé de ouvido* Não que os americanos possam falar muito sobre trapaça no esporte, certo? (Oi, Lance Armstrong!) *Comentário de pé de ouvido*

A verdade é que Azarenka é uma jogadora muito superior a Sloane Stephens, demonstrou isso em quadra e tinha a partida sob controle quando pediu atendimento médico. Stephens não vinha jogando bem, e não há motivos para se acreditar que seu jogo iria melhorar milagrosamente, ou que havia alguma espécie de momentum a seu favor àquela altura do jogo. Chega a ser ridículo supor que a paralisação de alguns minutos impediu uma virada histórica de Stephens, como a imprensa americana parece acreditar.

Se houve algum evento digno de reprovação em toda essa situação, foi a postura adotada na coletiva de imprensa, de acuar uma atleta e soterrá-la com insinuações acusatórias. A transcrição original pode ser encontrada no site do Australian Open. Simplesmente 21 das 27 perguntas feitas solicitavam esclarecimentos sobre o pedido de atendimento médico. Muitas delas elaboradas de forma absurda, como “Você acha que deve desculpas a Sloane pelo timing do seu pedido de atendimento médico?” ou “Foi um tempo muito longo, em um momento muito importante do jogo, não?”. Um pedido de atendimento médico, totalmente normal em jogos de tênis e dentro das regras, não tem por que causar qualquer mácula ao esporte. Já da histeria coletiva da imprensa de um país que não sabe perder, não se pode dizer o mesmo.