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Vencedores

abraço

Derrota de cabeça erguida

O Brasil caiu diante dos Estados Unidos. Estamos de volta à repescagem, sem garantia de retorno ao Grupo Mundial ano que vem. Mas não caímos como a maioria esperava. Melhor ainda, não caímos como os americanos esperavam. A torcida americana, que não chegou nem perto de lotar a Jacksonville Veterans Memorial Arena neste domingo, chegou a soltar a piadinha para John Isner: “vamos lá que a gente ainda quer ir ver o Superbowl!” Mas, pela primeira vez em muito tempo, a equipe brasileira da Copa Davis nos fez acreditar que aquele Grupo Mundial era o lugar onde ela merecia estar.

O começo foi doloroso e em conformidade com o que parecia ser o consenso geral. EUA 2 x 0 Brasil. Nossa única esperança para o primeiro dia, que era uma vitória de nosso número 1, Thomaz Bellucci, sobre o número 2 deles, Sam Querrey, até nem parecia tão absurda assim. Mas foi rapidamente sepultada por um 3 sets a zero. Thiago Alves, com seu ranking de cento e cacetadas, perdeu previsivelmente para John Isner. Estávamos com aquela incômoda — quase intransponível — desvantagem. E no dia seguinte nos aguardava a maior dupla da história.

Pois a maior dupla da história teve que se prestar ao papelão de dar pulinhos e gritinhos na nossa cara pra tentar ganhar dos nossos mineiros. E não funcionou. Os Bryans tombaram diante de Marcelo Melo e Bruno Soares em 5 sets, que poderiam ter sido menos. Estávamos vivos. Rebatemos a arrogância e a hipocrisia norte-americanas com tênis da melhor qualidade. Nem a ignomínia de tentar catimbar um jogo que até o momento estava sendo muito bem jogado (apesar de toda a pregação a favor da “sportsmanship” que os americanos adoram propalar, quando lhes convém), vinda de um jogador top não apenas no ranking como na história do esporte, abalou os brasileiros. Sobre esse episódio, aliás, recomendo muito este texto do Paulo Cleto (e antecipadamente peço desculpas por recomendar um texto tão cheio de erros de português, mas o conteúdo vale a pena).

Perdendo por 2×1, só nos restava partir para o tudo ou nada no último dia do confronto, precisando ganhar os 2 jogos restantes. Eu havia dito que Bellucci precisaria do mais inspirado dos dias inspirados pra ganhar de Isner. Não foi bem assim, mas foi quase assim. Isner, que vinha reclamando de dores no joelho, realmente não apresentou um físico 100%. Bellucci conseguiu se manter no jogo colocando o grandalhão pra correr, e mantendo um bom aproveitamento de saque. Com a ajuda da torcida, do banco, e provavelmente de Deus, Thomaz ganhou nosso segundo ponto no quinto set. Estava tudo empatado. Tipo assim EMPATADO. Os gigantes americanos não tinham nos engolido. Estávamos vivos. Ainda.

A decisão do confronto estava nas mãos de Colin Farrell, quer dizer, Thiago Alves. Nosso número 2. O 141 do mundo. Mas, se existe um lugar onde a ordem dos rankings pode ser subvertida, esse lugar é a Copa Davis. Às vezes pode parecer que o tênis é uma coisa muito lógica, até meio matemática, onde números 1 e 2 sempre acabam se cruzando nas finais importantes. Balela. Em Copa Davis, a gente pode jogar toda essa lógica pro espaço. A Copa Davis é como um feriadão onde os deuses do tênis não querem saber dos seus compromissos profissionais. Eles calçam seus chinelos e bebem uma caipirinha na beira da praia enquanto brincam de bagunçar a nossa vida.

choro

Thiago Alves, um guerreiro

E foi num desses momentos de descontração divina que Thiago Alves ganhou o primeiro set, se aproveitando furtivamente da oportunidade de quebra que teve. Ele estava pilhado, ligado, focado 100% no jogo. Estava na cara que Thiago Alves não estava ali sozinho. O banco, a torcida, a energia de milhões de brasileiros tomados de uma súbita esperança, devem ter feito o ranking dele subir pra um top 50, no mínimo. E foi triste quando mesmo toda essa conspiração cósmica se mostrou insuficiente pra bater a frieza do ranking, da estatura e do tênis de Sam Querrey. Eu confesso que me comovi com o choro de Thiaguinho após o jogo, após o desfecho trágico da epopeia brasileira em Jacksonville. Quem naquele momento não teve vontade de abraçá-lo e confortá-lo? De dizer que ele fez o seu melhor, e que o seu melhor era muito mais do que qualquer um podia esperar? Mesmo perdendo por 3×1 pra Sam Querrey, mesmo mandando o Brasil de volta à repescagem, Thiago Alves estava absolvido de qualquer condenação porque ele fez o que fizemos todos nós nesse domingo: deixou seu coração dentro daquela quadra.

Sei que meu último post, com “previsões” para o confronto (na verdade, um pouco de achismo e uma boa dose de torcida) pode ter soado excessivamente otimista ou ufanista. Mas, se querem saber, não me arrependi de acreditar. Muito pelo contrário. Hoje tive orgulho de acreditar no Brasil. Principalmente por saber que não acreditei sozinha. Nosso time também acreditou, lutou e honrou o país. Nos orgulhou ao invés de nos decepcionar. Enfrentou os gigantes americanos de igual pra igual. Nossa torcida de uns poucos fez mais barulho do que os donos da casa. Com essa gurizada em quadra, o Brasil se superou, se agigantou. Perdemos, mas saímos de quadra como gigantes. E o Grupo Mundial que nos espere, porque estamos prontos pra próxima batalha.  

futuro

Futuro iluminado para o Brasil na Davis