Arquivo do autor:Joana

Sobre Joana

A voz: Substância intangível Composta de alma derramada.

Stanislas Wawrinka, um delírio

stan

Stanislas Wawrinka fez história hoje em Melbourne. Não aquela História com “H” maiúsculo, a dos números e recordes. Mas a sua história. De um jogador que já havia batido duas vezes nessa mesma porta. A quem se apresentava insistentemente o mesmo desafio: enfrentar um dos maiores tenistas da atualidade no majestoso palco de um torneio de Grand Slam. Depois de derrotas em 5 sets nessa mesma Austrália e no US Open ano passado, ele conseguiu levar o jogo mais uma vez para a parcial final. Mas dessa vez, depois de 14 derrotas consecutivas para Djokovic, Stan escreveu um final diferente para a história — a sua história. Ele conseguiu.

Curiosamente, o homem que espantou seu próprio nêmesis para bem longe foi o mesmo que declarou categoricamente: “Eu não vou vencer o torneio”. Seria falta de autoestima? A suposta descrença em si mesmo já teria condenado Wawrinka ao fracasso na Austrália? Como num jogo de 5 sets, as coisas não são tão simples assim. Stan surgiu como tenista à sombra daquele que é considerado por muitos como o maior da História (essa sim, aquela com “H” maiúsculo). Durante muito tempo, foi considerado o “outro suíço”. E nunca pareceu muito desconfortável com isso. Wawrinka me parece ter a sabedoria de dispensar polêmicas inúteis ou qualquer tipo de oba-oba improdutivo. Ele não precisa reafirmar sua autoconfiança para ninguém além dele mesmo. Wawrinka parece ter uma humildade genuína e desprovida de esforço. É irreverente e descontraído no Twitter. Não por acaso, foi eleito a Personalidade do Ano de 2013 na Suíça. Merecido.

Nesta que se tornou a temporada dos supertécnicos, é tentador creditar boa parte do sucesso de Stan no Australian Open à sua parceria com Magnus Norman. Mas eu prefiro acreditar que Norman foi uma peça dentro de todo um processo de amadurecimento. Wawrinka teve em 2013 um ano de grande aprimoramento físico, técnico e mental. O suíço conseguiu se colocar em posição de igual pra igual frente aos grandes desafios que enfrentou. E agora finalmente parece estar criando as condições ideais para que seu inquestionável talento floresça, e seu belo tênis o leve às primeiras posições do ranking mundial.

A vitória de Wawrinka sobre Djokovic hoje na Austrália é tocante e emblemática porque materializa vários daqueles conceitos batidos que nos acostumamos a ver como balela: a vitória do azarão, a recompensa pela persistência, o patinho feio que passou de coadjuvante a protagonista. O homem que triunfou hoje é o mesmo que tem tatuada no braço a frase de Samuel Beckett: “Alguma vez tentou. Alguma vez fracassou. Não importa. Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.” E esse espírito de superação e perseverança, de quem tem que se virar com as dificuldades impostas pela vida, de quem não encara seus reveses como um fantasma, mas como um mestre, faz com que seja muito fácil para qualquer ser humano neste planeta sentir empatia por Wawrinka hoje. Embora aquele poema de Kipling tenha sido eternizado pelo outro suíço, é Stan quem parece entender melhor o que significa “encontrar-se com o Triunfo e com o Desastre, e tratar esses dois impostores da mesma maneira“.

O triunfo de Stan hoje na Austrália não entra para a História, aquela dos números e recordes. É apenas uma história de uma pessoa, como qualquer um de nós. E, por isso mesmo, muito mais grandiosa. Pois para este ano meu comentário sobre a final masculina do Australian Open do ano passado continua valendo: meu delírio inconfessável é que Stan seja campeão. Evidentemente, já não mais inconfessável. E, certamente, já não mais tão delírio.

Wimbledon: uma decepção

Aí vai um serviço de utilidade pública para os fãs de tênis que, assim como eu, gostam de castigar seus cartões de crédito nas lojas online dos torneios. Dentre todos os Grand Slams do tênis, eu jamais imaginei um dia que pudesse dizer isso justamente desse aqui, mas aconteceu. E meu conselho pra vocês é simplesmente esse:

NUNCA COMPREM NA LOJA ONLINE DE WIMBLEDON.

Long story short, eu fiz uma compra lá no dia 24 de junho deste ano. Quase 3 meses depois, a encomenda não chegou e eu resolvi mandar um e-mail para o Customer Service solicitando esclarecimentos. Essa foi a resposta da funcionária Noriko:

 reply

Oi? Como assim eu teria que ter entrado em contato em no máximo 30 dias? Detalhe que, no e-mail de confirmação da compra (abaixo), nada disso era informado. Muito pelo contrário, diziam apenas que eu teria que esperar pelo menos 17 dias úteis antes de entrar em contato caso a encomenda não chegasse.

email

Ou seja: eu não poderia reclamar da entrega antes de 17 dias úteis nem depois de 30 dias corridos, o que me dá uma janela de… uns 4 ou 5 dias! É claro que ninguém tem mais nada pra fazer da vida do que ficar acompanhando o calendário todo santo dia pra ver quando sua entrega de Wimbledon vai (ou não) chegar. Trabalhar, estudar, malhar, cuidar da família, ter seus momentos de lazer, lutar contra um câncer, pra quê, né? Se você for impreciso nesse aspecto, eles simplesmente não podem assumir nenhuma responsabilidade. Perdeu, playboy!

O detalhe sórdido é que a questão dos “30 dias” não é informada ao comprador em nenhum momento. Você só encontra essa informação se for furungar no FAQ do site. Super honesto, não?

É claro que, como ainda não criaram JEC na Corte de Haia, não há nenhuma medida que eu possa adotar para reaver o prejuízo, exceto alertar quem eu puder pra que não caia na mesma cilada. Além, é claro, de desabafar minha decepção, que é o que eu fiz na minha última resposta pra eles:

Dear Noriko

It was with huge disappointment that I received your response. 

Not in a million years would I dream that the Wimbledon official online shop would act in such way. First, failing to deliver the order I placed. And finally, claiming not to have any kind of responsibility about it. 

When I placed the order and received the e-mail confirmation (attached), it was never said to me that I should contact the customer supportbefore 30 days. Actually it was on the contrary! The e-mail said that I should wait at least 17 working days (which is basically almost a whole month) before I contacted you. Now that made perfect sense to me, since we all know that mail is often subject to delay. I order products from the UK all the time, and I know that sometimes it takes up to 45-50 days to arrive. 

But what you are telling me now is that I basically had a 5 days window to contact you about my order not being delivered. I’m sorry to say that, but it really sounds like you are trying to avoid responsibility here. I would have to be keeping track of the calendar, which is virtually impossible for someone who works, studies, has a family and all sorts of duties that a regular person does, and, on top of it, someone who has been dealing with a cancer treatment for the past two months. 

I am a lawyer and even though I’m not familiar with the British law, this kind of “deadline” is a disrespect to the customer in any country in the world. Most of all, this is not the behavior one could ever expect from an institution that carries the name WIMBLEDON. I must tell you it all seems almost surreal to me. In this very year, I ordered Australian Open and Roland Garros products. Maybe I could expect some trouble with the funny Aussies or the irreverent French, but all the packages arrived just in time. And then when I go shopping at the solid, reliable, traditional Wimbledon, they not only fail to deliver, but also tell me they can do nothing about it and wash their hands. 

Of course I have no intention to promote an international lawsuit over $ 75. But I can’t help expressing my frustration and letting you know that you have just lost a spectator, a supporter, a fan. For me, as a tennis fan, it would be just too much of a disappointment to watch my favorite athletes playing in the “sacred grass” of Wimbledon every year, and remember the 75 bucks that were stolen from me. This is just too sad.  

Sincerely, 

Joana Alencastro

E eu que pretendia formar uma fofa coleção de canecas dos 4 torneios de Grand Slam do tênis, vou encomendar a do US Open e ficar só com as 3, fingindo que Wimbledon não existe. O que é mais ou menos o que eles fazem com os seus consumidores.

Jogo dos 7 erros

bo rafa

Welcome to the jungle

Este post está atrasado, eu sei. Mas é que a programação do blog teve que ser refeita devido a umas goteiras aqui em casa, que insistiam em pingar água da chuva bem em cima do computador. Quando eu finalmente tive a brilhante ideia de pendurar um balde no teto pra parar o pinga-pinga, as linhas do meu editor de textos começaram a se soltar, e eu não conseguia escrever. Fora que a inspiração se recusava a dar as caras, reclamando desse teclado vagabundo que eu uso pra digitar. Não é fácil.

É claro que tudo isso não passa de uma ficção inspirada nos desconcertantes acontecimentos sucedidos no Brasil Open. Voltando um pouco no tempo, eu chego a me lembrar com saudade dos tempos em que minha única implicância com o ATP canarinho era sua disputa de espaço com o Carnaval no calendário. Bons tempos em que o que me envergonhava era o tímido remelexo dos tenistas ao lado de nossas opulentas mulatas. A gente era feliz e não sabia.

Pois o Brasil Open 2013 foi pródigo em motivos para se envergonhar. Um torneio que tinha tudo para se consolidar como um dos grandes eventos esportivos do país, contando com a presença maciça do público, com grandes nomes (Rafael Nadal, Nicolás Almagro e Juan Mónaco, só pra citar os top 20) e ampla cobertura da mídia, acabou sendo marcado por bizarrices como baldes no teto, espectadores acomodados nas escadas e cozinhando no calor escaldante dentro do ginásio. Não foi preciso perscrutar muito pra encontrar os 7 erros:bo martelo

Martelinho em quadra: pode isso, Arnaldo? 

1- O ginásio do Ibirapuera: teve quadra com linha soltando, goteira resolvida na base da gambiarra e barrão no caminho entre uma quadra e outra. Não teve ar condicionado nem infraestrutura pra abrigar um evento que atraiu mais de 40 mil pessoas na semana do torneio.

2- As bolas: causaram rejeição entre os tenistas, e até Nadal reclamou. A bola usada no torneio, até onde li, é um modelo baratinho da Wilson. Não custava tanto assim ser menos várzea na escolha da bola, certo?

3- Superlotação: não bastasse o ginásio ser uma sauna, em alguns jogos houve público além da capacidade. Como resultado, pessoas que pagaram um valor nada barato por um ingresso tiveram que se sentar nas escadas, invadir a área destinada à imprensa, ou ficar em pé mesmo. A organização do torneio negou “overbooking” e disse que pode ter havido falsificação dos ingressos — como se isso fosse amenizar as coisas de alguma maneira.

4- (Des)organização do torneio e protocolo: simplesmente não se deixa um bicampeão (hoje tri) do torneio, campeão de Grand Slam, um dos melhores tenistas brasileiros da atualidade, além de gente boníssima, passar o torneio inteiro enfiado em uma quadra secundária. Faltou consideração com Bruno Soares, e ficou feio. A cerimônia de premiação, com aquelas plaquinhas que ninguém conseguia manter abertas, e a profusão de políticos e papagaios de pirata que levantaram vaias efusivas da plateia, também não agradou.

5- Vaias: sim, seu torcedor de tênis mal educado, você também contribuiu para o fiasco do Brasil Open. O mundo inteiro está até agora tentando entender por que diabos o tenista número 1 da casa é tão vaiado no seu próprio país. Bellucci estava jogando mal, apático, errático, enfim, Belluciático? Então vamos torcer, animar, aplaudir, gritar, dar força de alguma maneira. Mas não. Torcedores foram ao Ibirapuera para reproduzir na realidade o bullying virtual que Thomaz já sofre diuturnamente. É realmente um exemplo de comportamento: reclamamos tanto do nosso tenista número 1 e, quando temos a oportunidade de ajudá-lo, agimos como babacas.

bo thomaz

Ganhando ou perdendo, há que se ter respeito

6- Desculpas esfarrapadas: o ginásio do Ibirapuera virou uma espécie de Gabriela Cravo e Canela. Ele não tem estrutura porque “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim… Ibirapuééééééra”. Os problemas que existem são culpa do governo estadual, já que o ginásio é público. Provavelmente quem tentasse fazer alguma melhoria seria fuzilado em praça pública como inimigo do estado, certo? Ah, não, mas as bolas eram padrão ITF. Quem se importa com um probleminha aqui e ali quando a gente teve Nadal e tanta gente compareceu pra prestigiar o torneio? Desculpem, mas é bobagem demais pra aturar.

7- Mico do presidente: o “cabeça” da CBT botou a culpa no governo de São Paulo, fez seus ataques de praxe aos “inimigos” do tênis brasileiro, parabenizou a organização do Brasil Open (!), reclamou de inveja e simplesmente continuou embarassing himself como já é sua prática usual no Twitter. Como se o tênis nacional precisasse passar mais vergonha.

bo presidente

Sem comentários

All in all, apesar dos pesares, dá pra se tirar algumas conclusões interessantes do Brasil Open. A consolidação de São Paulo como sede do torneio está se mostrando a cada ano uma escolha mais acertada. A cidade tem um público de tênis abundante e interessado. O contrato com um grande patrocinador, que permitiu a vinda de Rafael Nadal, também está fazendo maravilhas pelo torneio. As visitas ilustres estão garantidas, agora só falta arrumar a casa.

O Retorno do Rei

nadal return

Vai encarar? 

O Rei do Saibro voltou. Mais especificamente, no saibro. No ATP 250 de Viña del Mar, no Chile, onde Rafa alcançou a final e — pasmem — perdeu.

Às vezes eu tenho a impressão de que uma grande parte dos fãs de tênis ainda não conseguiu superar o fim da Guerra Fria. Pra essa gente, o mundo simplesmente tem que ser bipolar. Ou você é Federer, ou é Nadal. Ou você gosta de saibro ou de quadra rápida. Ou é jogo de base ou saque e voleio. Ou é Nike ou é Adidas. Ou é ATP ou é WTA. Cansativo. E agora, com a volta de Nadal, o senso comum se divide em dois novamente: ou a derrota do Rei significa que seus dias no tênis estão contados, ou não passa de um deslize desimportante no processo de retorno após 7 meses longe das quadras. Mas talvez, apenas talvez, não seja uma coisa nem outra.

Pessoalmente, estou vibrando com a volta de Nadal. O tênis é melhor com ele, seu jogo, seu talento, sua raça, sua força, sua humildade, seu carisma. Pra mim, o número 1 do mundo, Novak Djokovic, ainda está devendo entregar essa missão cumprida: suplantar o espanhol no saibro. Andy Murray, que desponta como protagonista do circuito, também deve domar o touro miúra pra mostrar a que veio. A temporada de saibro — ame-a ou não — simplesmente não podia ficar órfã, sem dono, assim de uma hora pra outra.

A forma como Rafa retornou, na minha opinião, diz algumas coisas. Antes de mais nada, não acho nada fora do normal um tenista não conseguir vencer seu primeiro torneio após ficar tanto tempo parado. Aliás, acho que apenas por estarmos falando de um monstro como Rafael Nadal, alguém chega a se surpreender com isso. Tudo bem que era um ATP 250 com uma chave pra lá de furreca (sorry, envolvidos). Mesmo assim, não dá pra esperar que o espanhol saia copando tudo por aí. Apesar do retorno, Nadal ainda reclama do joelho, e sua movimentação em quadra está longe do seu normal. O próprio espanhol parece não ter pressa e admite que a reconquista de seu velho jogo será um processo gradual. Que, espera ele e esperamos nós, terá seu ápice em Roland Garros.  É preciso ter paciência. Nadal não está jogando a gira sul-americana pra somar pontos no ranking ou adicionar troféus à sua estante. O espanhol quer ganhar ritmo, sentir o jogo, adequar sua preparação. Este é o momento em que derrotas serão aceitáveis, e não quando houver 2 mil pontos em jogo.

chaaaaato

O fim de Nadal: papo chaaaaato… 

Acho que ainda não será dessa vez que os profetas do apocalipse vão acertar o palpite sobre o fim de Nadal. O espanhol vem lidando com problemas, lesões e dor há muito tempo, e acho que simplesmente não é da sua natureza desistir sem batalhar um bocado antes. Por outro lado, neste momento é impossível saber se Rafa será capaz de manter a coroa de Rei do Saibro, ou sequer permanecer no top 4 do ranking. Embora ninguém duvide da força mental do espanhol, existem limites físicos que podem se tornar intransponíveis até mesmo para Nadal. Se vai ser o caso ou não, ainda é cedo pra dizer. Só o que eu sei é que o Rei voltou. Nadal está a postos diante da fortaleza, raquete em punho, guardando o seu reino. Quem for capaz, que o desafie.

Vencedores

abraço

Derrota de cabeça erguida

O Brasil caiu diante dos Estados Unidos. Estamos de volta à repescagem, sem garantia de retorno ao Grupo Mundial ano que vem. Mas não caímos como a maioria esperava. Melhor ainda, não caímos como os americanos esperavam. A torcida americana, que não chegou nem perto de lotar a Jacksonville Veterans Memorial Arena neste domingo, chegou a soltar a piadinha para John Isner: “vamos lá que a gente ainda quer ir ver o Superbowl!” Mas, pela primeira vez em muito tempo, a equipe brasileira da Copa Davis nos fez acreditar que aquele Grupo Mundial era o lugar onde ela merecia estar.

O começo foi doloroso e em conformidade com o que parecia ser o consenso geral. EUA 2 x 0 Brasil. Nossa única esperança para o primeiro dia, que era uma vitória de nosso número 1, Thomaz Bellucci, sobre o número 2 deles, Sam Querrey, até nem parecia tão absurda assim. Mas foi rapidamente sepultada por um 3 sets a zero. Thiago Alves, com seu ranking de cento e cacetadas, perdeu previsivelmente para John Isner. Estávamos com aquela incômoda — quase intransponível — desvantagem. E no dia seguinte nos aguardava a maior dupla da história.

Pois a maior dupla da história teve que se prestar ao papelão de dar pulinhos e gritinhos na nossa cara pra tentar ganhar dos nossos mineiros. E não funcionou. Os Bryans tombaram diante de Marcelo Melo e Bruno Soares em 5 sets, que poderiam ter sido menos. Estávamos vivos. Rebatemos a arrogância e a hipocrisia norte-americanas com tênis da melhor qualidade. Nem a ignomínia de tentar catimbar um jogo que até o momento estava sendo muito bem jogado (apesar de toda a pregação a favor da “sportsmanship” que os americanos adoram propalar, quando lhes convém), vinda de um jogador top não apenas no ranking como na história do esporte, abalou os brasileiros. Sobre esse episódio, aliás, recomendo muito este texto do Paulo Cleto (e antecipadamente peço desculpas por recomendar um texto tão cheio de erros de português, mas o conteúdo vale a pena).

Perdendo por 2×1, só nos restava partir para o tudo ou nada no último dia do confronto, precisando ganhar os 2 jogos restantes. Eu havia dito que Bellucci precisaria do mais inspirado dos dias inspirados pra ganhar de Isner. Não foi bem assim, mas foi quase assim. Isner, que vinha reclamando de dores no joelho, realmente não apresentou um físico 100%. Bellucci conseguiu se manter no jogo colocando o grandalhão pra correr, e mantendo um bom aproveitamento de saque. Com a ajuda da torcida, do banco, e provavelmente de Deus, Thomaz ganhou nosso segundo ponto no quinto set. Estava tudo empatado. Tipo assim EMPATADO. Os gigantes americanos não tinham nos engolido. Estávamos vivos. Ainda.

A decisão do confronto estava nas mãos de Colin Farrell, quer dizer, Thiago Alves. Nosso número 2. O 141 do mundo. Mas, se existe um lugar onde a ordem dos rankings pode ser subvertida, esse lugar é a Copa Davis. Às vezes pode parecer que o tênis é uma coisa muito lógica, até meio matemática, onde números 1 e 2 sempre acabam se cruzando nas finais importantes. Balela. Em Copa Davis, a gente pode jogar toda essa lógica pro espaço. A Copa Davis é como um feriadão onde os deuses do tênis não querem saber dos seus compromissos profissionais. Eles calçam seus chinelos e bebem uma caipirinha na beira da praia enquanto brincam de bagunçar a nossa vida.

choro

Thiago Alves, um guerreiro

E foi num desses momentos de descontração divina que Thiago Alves ganhou o primeiro set, se aproveitando furtivamente da oportunidade de quebra que teve. Ele estava pilhado, ligado, focado 100% no jogo. Estava na cara que Thiago Alves não estava ali sozinho. O banco, a torcida, a energia de milhões de brasileiros tomados de uma súbita esperança, devem ter feito o ranking dele subir pra um top 50, no mínimo. E foi triste quando mesmo toda essa conspiração cósmica se mostrou insuficiente pra bater a frieza do ranking, da estatura e do tênis de Sam Querrey. Eu confesso que me comovi com o choro de Thiaguinho após o jogo, após o desfecho trágico da epopeia brasileira em Jacksonville. Quem naquele momento não teve vontade de abraçá-lo e confortá-lo? De dizer que ele fez o seu melhor, e que o seu melhor era muito mais do que qualquer um podia esperar? Mesmo perdendo por 3×1 pra Sam Querrey, mesmo mandando o Brasil de volta à repescagem, Thiago Alves estava absolvido de qualquer condenação porque ele fez o que fizemos todos nós nesse domingo: deixou seu coração dentro daquela quadra.

Sei que meu último post, com “previsões” para o confronto (na verdade, um pouco de achismo e uma boa dose de torcida) pode ter soado excessivamente otimista ou ufanista. Mas, se querem saber, não me arrependi de acreditar. Muito pelo contrário. Hoje tive orgulho de acreditar no Brasil. Principalmente por saber que não acreditei sozinha. Nosso time também acreditou, lutou e honrou o país. Nos orgulhou ao invés de nos decepcionar. Enfrentou os gigantes americanos de igual pra igual. Nossa torcida de uns poucos fez mais barulho do que os donos da casa. Com essa gurizada em quadra, o Brasil se superou, se agigantou. Perdemos, mas saímos de quadra como gigantes. E o Grupo Mundial que nos espere, porque estamos prontos pra próxima batalha.  

futuro

Futuro iluminado para o Brasil na Davis

Sonho brasileiro na Davis

trio

Brasileiros sonhando alto

De amanhã até domingo, o Brasil vai enfrentar a equipe dos Estados Unidos pela primeira rodada do Grupo Mundial. Simplesmente estar lá já é um feito e tanto para o nosso tênis, ausente da “primeira divisão” do tênis mundial por 10 longos anos. Tudo bem que a gente poderia ter dado um pouquinho mais de sorte no sorteio que, em setembro do ano passado, definiu os confrontos. A gente poderia estar roubando, poderia estar matando, poderia estar jogando em casa contra a Croácia ou a Áustria. Mas em vez disso vamos enfrentar os Estados Unidos .

Não dá pra dizer que o tênis brasileiro vive um mau momento. Thomaz Bellucci está entre os 40 melhores do mundo. Nossos dois principais duplistas começaram o ano com títulos — e em quadra dura. Marcelo Melo venceu em Brisbane junto com Tommy Robredo e Bruno Soares ganhou em Auckland ao lado de Colin Fleming. Parece que nossos mineiros só vêm crescendo desde a separação. Analisando-os em separado, parece ótimo para o tênis no país. Mas na hora da Davis, será que isso é bom pra nós? Será que Melo e Soares vão trazer a bagagem da evolução que viveram longe um do outro, ou vão esbarrar em dificuldades? Minha opinião e minha torcida dizem que os dois podem fazer a mágica acontecer quando se encontrarem. Foi assim no confronto contra a Rússia pela Davis ano passado, e foi assim também nas Olimpíadas de Londres, onde os mineiros chegaram até as quartas de final. Ambos são top 20 do ranking de duplas da ATP. Bruno tem um Grand Slam em duplas mistas. A dupla promete.

davis

A ordem dos fatores

Tudo seria maravilhoso se, do outro lado da quadra, não fosse estar a dupla número 1 do mundo. Bob e Mike Bryan acabaram de copar o Australian Open, e vêm com tudo para colocar água na caipirinha brasileira. Como se não bastasse, os dois simplistas americanos têm ranking melhor que o nosso número 1. O sorteio da ordem das partidas também não foi dos mais favoráveis, colocando Thiago Alves num potencialmente decisivo quinto jogo. Some-se a isso o fator “casa” que costuma jogar muito a favor dos americanos. E, se Bruno Soares declarou que gosta de jogar fora, Bellucci ainda parece bem instável sob pressão. Será que dá pra sonhar?

Expectativa, realidade e mundos alternativos

Falando sério? Acho que Bellucci pode ganhar de Sam Querrey em um dia muito inspirado. Thiago Alves tem chances modestas (estou usando um eufemismo, OK?) contra John Isner. Bruno Soares e Marcelo Melo podem fazer um bom jogo contra os Bryans, e eu prefiro acreditar que o resultado é imprevisível. Thomaz Bellucci precisaria do mais inspirado dos dias inspirados pra ganhar de John Isner. E Thiago Alves ganhando do número 20 do mundo? Não vou dizer que é impossível, mas… I don’t think so. Em meus loucos delírios, Bellucci ganharia fácil de Querrey, Bruno e Melo bateriam os Bryans em um jogo dramático à argentina, e Bellucci voltaria no último dia para operar um milagre e conseguir uma vitória heróica sobre Isner, poupando Thiaguinho do jogo decisivo. Na realidade, parecemos condenados, mas só Deus sabe o que pode acontecer. Agora só resta torcer. E vamo, Brasil!

soalegria

Só alegria na Davis. Será? 

Ainda absoluto

nolekiss

O campeão

Se a final feminina foi tão lacrimogênea quanto um livro do Nicholas Sparks, a final masculina foi só sorrisos. Bom, talvez não para Andy Murray. Mas ele está sempre fazendo careta mesmo.

Novak Djokovic se consagrou tetracampeão do Australian Open, com 3 títulos em sequência. Seria um clichê dizer que o sérvio mostrou por que é o número 1 do mundo na final contra Murray, mas foi exatamente isso que aconteceu. O britânico se manteve consistente no saque nos dois primeiros sets, com um aproveitamento absurdo de primeiro serviço. A partida parecia fadada a seguir no ritmo de longas trocas de bola do fundo da quadra até o quinto set. Mas foi aí que Djokovic ousou dar o passo à frente que caracteriza os grandes campeões. Após dois tiebreaks, um pra cada lado, Murray sacava em 3-4 para igualar o 3.º set. Djokovic se defendeu brilhantemente no saque do britânico e contra-atacou. Com uma bola na rede de Murray, o sérvio conseguiu o primeiro break da partida. Esse foi, pra mim, o turning point de Djokovic. Era o momento, a hora certa de quebrar. A partir desse game, o sérvio mostrou que estava ali para ir pra cima, para ganhar. E foi o que aconteceu. Nole não vacilou em seu game de saque e fechou o terceiro set em 6/3. No quarto set, o domínio do número 1 já era absoluto e a frágil fortaleza mental de Andy Murray já estava completamente desmoronada. O jogo se encerrava em 3 sets a 1 para confirmar o 6.º título de Grand Slam da carreira de Novak Djokovic.

No final das contas, venceu quem mostrou o melhor tênis, especialmente nos momentos decisivos. Djokovic já havia provado por que era o número 1 do mundo quando ganhou a batalha épica de 5 horas contra Stanislas Wawrinka, um jogo que certamente estará entre os mais acessados do AO Vault daqui a pouco. Já Andy Murray, que não perdeu um set sequer até a semifinal, teve uma campanha parecida com a de Maria Sharapova na chave feminina: resultados arrasadores, mas contra adversários em sua maioria inexpressivos. Seu primeiro desafio de verdade, o belo jogo contra Roger Federer na semifinal — onde, aliás, Murray jogou muito mais do que na final — contribuiu para uma percepção enganosa de favoritismo. Na hora H, o britânico não trouxe seu melhor para a Rod Laver Arena.

board

O comunicativo

Há que se dizer que Murray foi um gentleman no discurso de vice-campeão. Eu adoraria — mesmo — que ele tivesse um comportamento assim também dentro de quadra. Suas caretas, xingamentos e arroubos de irritação chegaram a ser hilários. Talvez pra ele seja uma forma eficiente de extravasar a tensão durante o jogo, mas eu ainda não consigo entender como aquilo pode beneficiar alguém. Em mim, que estou vendo de fora, o comportamento em quadra do britânico provoca um misto de incômodo, irritação e acessos de riso. Eu simplesmente não consigo torcer por alguém que está o tempo inteiro brigando com o jogo porque eu amo aquele jogo. Mas acima de tudo me dá a nítida impressão de que ele consegue apenas criar uma atmosfera de negativismo ao seu redor. E impedir que seu belo tênis domine a cena.

Bem, duas semanas se passaram e é hora de dizer um “até breve” para o Australian Open. Fazendo jus a um de seus apelidos, foi um Grand Slam feliz. Que premiou a competência — os títulos de simples e duplas masculinos e femininos foram para os cabeças-de-chave número 1. Mas que mostrou também que o tênis transcende a frieza dos números e resultados. Não demore a voltar, Australian Open! Já estamos com saudades.